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IMI - Brutalmente agravado...

O IMI vai ficar à rédea solta, e vai ser brutalmente agravado em 2015 com o término da "cláusula de salvaguarda"

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Serviços Públicos Essenciais

A PROPÓSITO DOS “CORTES-SURPRESA” DA “ENDESA”

- direitos e deveres dos consumidores -

O que são serviços públicos essenciais?

Numa fórmula simples, os que proporcionam condições de dignidade à vida humana.

E quais são hoje em dia, entre nós, os serviços públicos essenciais?
. água
. energia eléctrica
. gás
. gás de petróleo liquefeito canalizado
. comunicações electrónicas
. serviços postais
. saneamento
. resíduos sólidos urbanos (recolha de lixos)

Que obrigações principais recaem sobre as partes no contrato?
Ao fornecedor cabe assegurar o regular abastecimento, o contínuo fornecimento do serviço ao consumidor, em condições de qualidade, eficácia e segurança.
Ao consumidor cabe pagar, no tempo e no lugar próprios, o serviço prestado.
O fornecedor assegura o serviço.
O consumidor paga.
E o fornecedor só pode suspender o serviço se o consumidor deixar de cumprir as obrigações a seu cargo. Desde logo, se não pagar.
Há regras que importa observar estritamente, sob pena de ineficácia das medidas que o fornecedor queira adoptar, nomeadamente a suspensão do serviço, vulgo, o corte.

A FACTURA
O consumidor tem direito a uma factura que especifique convenientemente os valores que dela constem. A transparência é fundamental. Para que cada um saiba em rigor – e com rigor - o que paga.
Se não for transparente, o consumidor tem o direito de ser esclarecido dos valores em causa. E não pagará enquanto tais esclarecimentos não forem prestados. E por esse facto não se lhe pode agravar a factura nem suspender o serviço.
A factura é mensal por força de lei. Que não de dois em dois ou de três em três meses…
A factura não deveria assentar numa qualquer estimativa, mas no consumo real, nos valores efectivamente consumidos pelo consumidor.
O consumidor deve pagar só o que consome, na exacta medida do que e em que consome.
Embora a lei preveja a estimativa, entendemos que tal fere os direitos do consumidor constitucionalmente consagrados. Porque viola directamente o princípio da protecção dos interesses económicos do consumidor plasmado na Lei Fundamental, na Lei das Leis...

Se se tratar de comunicações electrónicas, a factura deve traduzir com o maior pormenor possível os serviços prestados, sem prejuízo do direito à privacidade e ao sigilo das comunicações
Se se tratar do serviço de energia eléctrica, a factura deve discriminar o montante dos serviços prestados, bem como os custos de medidas de política energética, de sustentabilidade ou de interesse económico geral (geralmente denominado de custo de interesse económico geral), e outras taxas e contribuições, nos termos da lei.
A discriminação não pode importar um qualquer acréscimo do valor da factura. Quer dizer, a empresa não poderá cobrar mais por efectuar essa discriminação.
Entendemos, porém, que tantas destas taxas têm o valor de um imposto e, como tal, deveriam ser decretadas pelo Parlamento e não impostas de forma avulsa pelo Governo, sob pena de inconstitucionalidade. Que é o que sucede!
A factura de energia eléctrica, por exemplo, uma vez emitida, deve, nos termos do regulamento comercial, ser paga nos:
. 10 dias úteis, a contar da sua apresentação aos consumidores (baixa tensão).
. 20 dias úteis, se se tratar de consumidores economicamente vulneráveis.

O “CORTE” DO SERVIÇO
Se o consumidor não pagar, não poderá haver corte imediato, isto é, com o efeito surpresa: “não pagaste, ficas a todo o momento à espera do corte… quando, não se sabe!”
Só poderá verificar-se o corte se houver pré-aviso.
Pré-aviso que tem de chegar inequivocamente à esfera do consumidor, tem de chegar ao seu conhecimento.
Não basta ao fornecedor expedir a carta. Para poder exercer o seu direito. O consumidor terá de a receber.
O pré-aviso tem de obedecer a determinados requisitos.
O pré-aviso tem de ser passado a escrito.
O pré-aviso tem de conceder ao consumidor, pelo menos, 20 dias para regularizar a situação.
Do pré-aviso deve constar, sem restrições, um conjunto de menções, ainda que a lei o não refira expressamente:
. montantes em dívida,
. facturas a que se reportam tais montantes,
. data da emissão das facturas (porque a dívida pode estar já prescrita e a data é o elemento essencial para se aferir disso)
. valores correspondentes a serviços funcionalmente indissociáveis (por exemplo, na energia eléctrica, em princípio, a taxa de potência… e dizemos em princípio porque a taxa de potência corresponde, ao que se nos afigura, a um pagamento mínimo, quiçá, a um consumo mínimo, ou seja, consuma ou não, o consumidor paga sempre essa “taxa”…) (e a cobrança de consumos mínimos é proibida por lei…)
. valores correspondentes a serviços funcionalmente dissociáveis (a contribuição do audiovisual, por exemplo, que não tem uma unidade íntima com a energia eléctrica)
. meios de que o consumidor dispõe para regularizar as facturas em dívida
. lugar em que a regularização deva ocorrer ou os meios para o fazer (multibanco, etc…) e
. período(s) do dia em que pode fazê-lo e em que condições
. indicação dos meios ao seu alcance para a reposição do serviço se a regularização se não fizer durante o período de antecedência mínima (repete-se: mínima) de 20 (vinte dias) e a suspensão se vier a consumar.
Não basta dizer: “tem de pagar 100€ em dívida, sob pena de suspensão”. Tem de dizer a que se referem esses 100€. Isso parece curial. E é, na verdade, elementar! Mas não está a ser cumprido, por estranho que pareça…
Não se esqueça que, muitas vezes, os consumidores, sobretudo quando sujeitos, como é usual, à facturação por estimativa, ainda que não paguem uma factura, não são devedores, são credores porque a sobrefacturação (a facturação em excesso, em que se exige pagamento a mais que os valores efectivamente consumidos) os leva a nada dever, antes a ter de haver montantes por vezes significativos.
E tudo isto deve ser devidamente ponderado.
Mas há questões que não poderemos deixar de suscitar:
. o “corte” será direito do fornecedor ? Uma espécie de autodefesa? Uma aplicação do princípio da excepção de não cumprimento?
. ou, tratando-se de serviços públicos essenciais, deveria haver aqui uma excepção?
Dizendo de outra maneira: tratando-se de serviços públicos essenciais, inerentes ao suporte de vida de cada um e todos no dia-a-dia, devem ser os fornecedores a cortar por sua alta recriação, ainda que observados os requisitos para que a lei aponta, ou terá a suspensão de ser decretada por um tribunal, depois de ponderadas as razões de uma e outra das partes?
Sem mais, dizemos:
. não devem ser os fornecedores a ter a faca e o queijo na mão, ou seja, a efectuar por si sós os cortes, com o que se obvia a que se cometa os atropelos a que vimos assistindo amiúde;
. devem ser os tribunais (arbitrais ou não) a fazê-lo, depois de uma ponderação adequada, tendo em vista os aspectos já referenciados.
E não se diga que as coisas se eternizarão nos tribunais, se o processo for célere, mas sem quebra de garantias.
E ou em tribunais arbitrais necessários ou em tribunais de competência especializada em que se dirimam os conflitos de consumo ou em julgados de paz especializados.
Não se esqueça que a água é um direito humano. E, no entanto, é – quantas vezes! – “valorada” como se de um punhado de alcagoitas se tratasse…
Não se esqueça que o estado de saúde de muitos depende do acesso à energia eléctrica que, se falhar, põe em causa a saúde e a segurança de cada um e todos os atingidos.
Não se esqueça que um telefone pode salvar uma ou mais vidas, como ainda agora se viu na recuperação de sinistrados na derrocada de um prédio em Guarulhos, São Paulo…
Não estamos em presença de meras mercadorias com um dado valor de mercado.
É mais. Muito mais.
E nem sempre disso se tem consciência.

INDEMNIZAÇÃO PELOS PREJUÍZOS CAUSADOS PELOS “CORTES” ILEGAIS
Nem se esconda que os prejuízos causados por um qualquer corte “inoportuno”, infundado, ilegal, são susceptíveis de acarretar responsabilidade civil, pagando o fornecedor pelos danos materiais e morais causados. Tudo isto nos termos do n.º 1 do artigo 12 da Lei de Defesa do Consumidor.
Mas, apesar dos atropelos, não há muitos casos de indemnização porque os consumidores, movidos não se sabe bem porque sentimentos, “cortam-se”, cortam-se a exercer os seus direitos…
E assim se mantém esta “austera, apagada e vil miséria”… trave mestra do viver colectivo deste definhado “jardim à beira-mar” exposto aos elementos, sujeito à intempérie social que sobre nós se abate!

 

Mário Frota 

Director do CEDC – Centro de Estudos de Direito do Consumo de Coimbra